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Desenvolvimento do Adocionismo

Desenvolvimento do Adocionismo

O texto analisa a evolução de uma corrente teológica conhecida como adocionismo e como essa questão influenciou a redação dos Evangelhos e o desenvolvimento da cristologia nos primeiros séculos do cristianismo.

Principais Pontos

1. Contexto Inicial e Ausência de Definições Precisas (Século I)
- Nos primórdios do cristianismo, os líderes das comunidades não se preocuparam tanto em definir com precisão a natureza do poder e da autoridade de Jesus.
- Jesus era visto, sobretudo, como aquele que inaugurava o Reino de Deus por meio de sua obra e ensinamento, sem enfatizar sua própria pessoa.

2. A Emergência do Adocionismo (Final do Século II)
- Com o tempo, surgiram esforços para definir quem Jesus realmente era e qual sua relação com Deus.
- Teódoto de Bizâncio (conhecido como o “Curtidor”) foi o primeiro a sistematizar o adocionismo.
- Segundo essa visão, Jesus era um homem plenamente humano, nascido naturalmente da Virgem, que recebeu uma “força especial” no momento do batismo, o que o tornava o Messias.
- Essa explicação procurava resolver a dificuldade de alguns judeus convertidos em aceitar que Jesus fosse divino por natureza.

3. Desdobramentos e Comunidades Cismáticas
- Apesar da excomunhão de Teódoto pelo papa Vítor, ele conseguiu reunir um grupo de seguidores, especialmente entre judeus convertidos, dando origem a uma comunidade cismática em Roma.
- Entre seus discípulos, destaca-se Teódoto, o Jovem, que introduziu a ideia de que Melquisedec seria o verdadeiro intermediário entre Deus e os anjos, superando até mesmo Jesus.

4. Influência na Redação dos Evangelhos
- A problemática em torno da natureza de Jesus motivou os evangelistas a escreverem seus relatos para comprovar e demonstrar a divindade de Jesus.
- Cada evangelho apresenta evidências de que, por meio de sua vida, milagres e ensinamentos, Jesus se revelou como o Filho de Deus (por exemplo, em João 20,30-31, Marcos 1,1 e 15,39 e diversas passagens em Mateus).

5. A Evolução do Título “Filho de Deus”
- O título não é encontrado nas primeiras proclamações apostólicas – onde Jesus é mais frequentemente chamado de Servo, Ungido ou Mestre – aparecendo mais explicitamente nos discursos de Paulo (como em Atos 9 e 13).
- Para Paulo, a ressurreição de Jesus é o momento em que Deus o reconhece publicamente como Seu Filho, legitimizando sua missão messiânica.
- Na tradição judaica do Antigo Testamento, “filho” era um termo que designava tanto o povo de Israel quanto seus líderes e representantes divinos, enfatizando uma relação de amor, eleição e confiança, sem necessariamente implicar igualdade ontológica com Deus.

6. Interpretação Adocionista versus Cristologia Ortodoxa
- O adocionismo via Jesus como um homem de virtude extraordinária, escolhido e fortalecido por Deus para cumprir a missão messiânica, sem que sua natureza tivesse divindade inerente.
- A ressurreição, nesta perspectiva, é o meio pelo qual Deus confere a Jesus o reconhecimento necessário para sua missão, mas não prova uma divindade pré-existente.
- Essa visão foi contestada por teólogos como Hipólito e Tertuliano, que, utilizando as Escrituras e a tradição apostólica (como evidenciado por Eusébio de Cesaréia), defenderam que a verdadeira fé apostólica sempre proclamou Jesus como Deus e homem, e não meramente um homem “adotado” por Deus.

--- Conclusão

O adocionismo reflete uma tentativa inicial de explicar a singularidade de Jesus sem atribuir a ele uma natureza divina intrínseca. Essa posição emergiu em um contexto de transição onde os primeiros cristãos buscavam compreender e expressar o relacionamento entre Deus e Jesus. A subsequente reação dos teólogos ortodoxos, que enfatizaram a divindade de Cristo conforme a tradição apostólica, acabou por reorientar a cristologia para a compreensão de Jesus como simultaneamente Deus e homem. Essa tensão foi fundamental para o desenvolvimento da teologia cristã nos séculos seguintes.

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